Instituição passa por sua pior crise em mais de 100 anos de história e proposta de leilão de patrimônio doado em testamento divide opiniões
Na manhã deste sábado, 18 de abril, moradores de Cataguases foram às ruas em protesto contra a intervenção municipal no Hospital de Cataguases, decretada há mais de dois anos pela prefeitura. O ato reuniu representantes da sociedade civil organizada, profissionais da área da saúde, dois vereadores em exercício, os ex-vereadores Rafael Moreira e Serafim Spíndola que é um dos idealizadores do evento e o ex-deputado estadual Fernando Pacheco. A manifestação percorreu pontos centrais da cidade e encerrou em frente ao próprio hospital, com uma oração coletiva.
Ao longo do trajeto, os manifestantes foram recebidos com aplausos de moradores, apoio de lojistas e buzinaços de veículos. Os gritos ecoados nas ruas — "Respeito", "Fora José", "Queremos o fim da intervenção", "E agora José?" e "Queremos 100%" — sintetizavam as principais queixas da população. O último slogan faz referência a uma proposta da prefeitura para quitar a dívida com funcionários do hospital mediante o pagamento de apenas 85% do 13º salário de 2025, que ainda não foi pago. Representantes de órgãos de defesa trabalhista e entidades da sociedade civil ainda não apresentaram ações concretas em prol dos servidores, segundo os organizadores.
O cortejo teve início na Praça Rui Barbosa, no centro da cidade, percorreu o calçadão e seguiu até a Rua Major Vieira, local de residência da família do prefeito José Henriques, onde os gritos ganharam intensidade. Em seguida, a multidão se dirigiu à Santa Casa, onde os manifestantes rezaram o Pai Nosso em frente à instituição e encerraram o ato.
O Hospital de Cataguases, centenário e de caráter filantrópico, atravessa o que críticos e observadores descrevem como a pior crise de sua história. Pela primeira vez em mais de cem anos de funcionamento, a instituição chegou a fechar sua UTI e o Centro Cirúrgico — serviços que, segundo informações recentes, estariam sendo retomados após ações do Ministério Público. A intervenção administrativa, iniciada em 16 de abril de 2024, foi justificada à época por irregularidades na gestão anterior, mas dois anos depois o quadro financeiro permanece crítico.
Na quinta-feira, 16 de abril, uma audiência na prefeitura reuniu o prefeito José Henriques, o secretário municipal de Saúde, o atual interventor Jeferson Freire, Vinícius Franzone, e o promotor de Justiça Rodrigo de Barros, além de vereadores e representantes da imprensa. O encontro revelou um diagnóstico preocupante: das exigências que motivaram a intervenção, apenas a regularização dos plantões médicos no Pronto-Socorro e a obtenção do alvará sanitário — este último "com ressalvas", na expressão do próprio promotor — foram cumpridas. O promotor classificou como crítica a ausência de um gestor hospitalar com experiência técnica, lacuna que, segundo ele, pode ter comprometido o ritmo da intervenção. Nas palavras de Rodrigo de Barros, seria necessário "o piloto mais experiente possível", o que "tem custo" e "dificuldade de busca".
Na reunião, foram apresentadas algumas alternativas para tentar estabilizar as finanças da Santa Casa. Entre elas, a possibilidade de uma parceria de gestão com o Hospital São Paulo de Muriaé, a devolução da administração à Irmandade (gestora anterior) e, a mais polêmica, a eventual alienação da Fazenda da Fumaça, propriedade rural localizada em Santana de Cataguases e pertencente ao patrimônio do hospital. O imóvel foi doado em testamento pelo benfeitor Dr. Norberto Custódio Ferreira e teria sido avaliado em cerca de R$ 50 milhões em 2024. Críticos alertam que o caráter testamentário da doação pode gerar questionamentos jurídicos a qualquer processo de alienação, e que o valor do bem mal cobriria as dívidas acumuladas, sem garantir sustentabilidade futura caso não haja uma gestão especializada e qualificada no comando do hospital.
Na mesma audiência, o prefeito também reconheceu que a escolha política de apoio exclusivo ao deputado federal Newton Cardoso Jr. teria afastado outros parlamentares estaduais, que, por desconfiança em relação à publicidade das verbas, deixaram de encaminhar emendas para o hospital. Um aporte mensal conjunto de aproximadamente R$ 689 mil, dividido entre os municípios da microrregião, foi apresentado como solução para cobrir os plantões médicos e liberar recursos para o pagamento escalonado das dívidas com profissionais e servidores. O atual interventor, Jeferson Pinto de Freitas, confirmou a criação de um portal de transparência para divulgação dos relatórios de gestão e explicou que dívidas antigas com a Energisa impedem a instalação de 300 placas de energia solar, bem como a operação de duas usinas de oxigênio e de um poço artesiano — equipamentos parados por falta de caixa.
Este foi mais um capítulo da grave crise enfrentada pelo 'Gigante Azul'. O hospital é o único atendimento público de Cataguases e uma referência vital para diversas cidades da região.
Por Mídia Mineira.
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